Câmara de Castro promove capacitação para ‘Jogo da Eleição’

por Helcio Luiz W Kovaleski publicado 06/03/2020 20h20, última modificação 06/03/2020 21h01
Legislativo e Instituto Mais Cidadania promoveram tarde de ensino lúdico-pedagógico sobre legislação eleitoral a servidores e estudantes; Câmara é a primeira do Paraná a receber treinamento

Ensinar a adolescentes e jovens estudantes os caminhos da política, mais especificamente no contexto do chamado jogo eleitoral. Mostrar como se desenvolve uma campanha eleitoral, com os seus meandros, seus descaminhos, mas no sentido de apontar para um processo que tenha como base a ética e as boas condutas, para, no final das contas, beneficiar toda a população. Tudo dentro dos sagrados princípios da democracia.

Foi com esse pensamento que cerca de 40 pessoas, entre vereadores, servidores públicos municipais, professores e alunos do Ensino Médio e pessoas da comunidade participaram, na tarde da última quarta-feira (4), de uma capacitação para o “Jogo da Eleição”, promovida pela Câmara Municipal de Castro. Ministrada pelos advogados Roosevelt Arraes e Luiz Gustavo de Andrade, do Instituto Mais Cidadania, de Curitiba, a capacitação ocorreu no Plenário, das 13 horas às 18h30 – período no qual o expediente interno do Legislativo ficou suspenso (conforme a Portaria 24/2020). Estavam presentes na capacitação a presidente da Câmara, vereadora Fátima Castro (MDB); o vice, Herculano da Silva (PSC); e o primeiro-secretário, Maurício Kusdra (DC).

A Câmara de Castro foi a primeira do estado do Paraná a promover e sediar a capacitação para o Jogo da Eleição. E Castro, a primeira cidade do Interior paranaense a abrigar essa capacitação.

A capacitação foi dividida em duas partes. Na primeira, destinada aos vereadores e servidores, os advogados falaram sobre as vedações e regras da legislação eleitoral para o pleito municipal de outubro deste ano. Depois, eles conduziram o aprendizado do Jogo da Eleição, primeiramente a alunos e professores do Colégio Estadual Professora Joana Torres Pereira e, em seguida, aos servidores.

‘Disparador pedagógico’

Desenvolvido em parceria entre o Instituto Mais Cidadania, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE/PR), por intermédio da Escola Judiciária Eleitoral do Paraná (EJE/PR), e o Centro Universitário Curitiba (Unicuritiba), o Jogo da Eleição é uma espécie de entretenimento de tabuleiro para seis participantes que simula uma eleição para presidente da República. Durante a partida, os jogadores podem utilizar “cartas de campanha”, que contêm condutas permitidas e condutas proibidas pela legislação eleitoral. A ideia, segundo os advogados, é conscientizar, de forma lúdica, especialmente os “futuros eleitores” – exatamente os estudantes do Ensino Médio –, “mas também a comunidade em geral”, acerca das regras e do processo eleitoral. Nesse sentido, segundo eles, o jogo funciona como um “disparador pedagógico” para a discussão sobre a “importância de um processo eleitoral ético”.

Roosevelt e Luiz Adriano explicam que, para a aplicação do Jogo da Eleição nas escolas, é necessário estabelecer parcerias e promover a capacitação dos servidores públicos, a fim de dar continuidade ao projeto. “O objetivo da aplicação do jogo é conscientizar a juventude para a importância de um processo eleitoral ético”, diz Roosevelt, lembrando que o jogo é voltado a adolescentes de 16 a 18 anos – “justamente aqueles eleitores que irão votar neste ano”.

Projeto Câmara Cidadã

Na avaliação da vereadora Fatima Castro, a capacitação foi um “sucesso”. “Nós percebemos, durante a tarde, a participação das pessoas. Tivemos uma adesão muito boa”, diz.

Fátima explica que a capacitação para o Jogo da Eleição faz parte do “Projeto Institucional Câmara Cidadã: integração sócio-comunicacional com a comunidade e protagonismo legislativo” – fruto do Projeto de Resolução 09/2019, de sua autoria, que foi aprovado por unanimidade. “Na quarta-feira, aconteceu na prática uma das suas vertentes, que é a educação para a cidadania voltada às crianças e ao público jovem”, destaca.

De acordo com a vereadora, a capacitação é um trabalho que será desenvolvido pelos servidores da Câmara, “mas em parceria com pessoas da sociedade”. “Para essa capacitação, nós convidamos professores da rede estadual de ensino, representantes do Fórum Eleitoral de Castro, do Rotary Club e de associações de moradores e a comunidade em geral”, conta. “Na primeira parte, houve a explicação sobre o processo eleitoral justamente para as pessoas que irão aplicar esse jogo. Elas tinham que ter esse conhecimento do processo eleitoral em si, entender toda a dinâmica, a abordagem que é preciso fazer com os jovens. Nesse sentido, o Jogo da Eleição é um instrumento para a aprendizagem de suma importância para a construção da cidadania, pelo qual, através de uma experiência lúdica e reflexiva, se aprende sobre a democracia, a moralidade e principalmente sobre os efeitos da corrupção na administração pública”, avalia.

Conforme Fátima, a organização de novas capacitações do Jogo da eleição irá depender do interesse da comunidade. Segundo ela, para aplicar o jogo em uma sala de aula são necessários nove mediadores. “As pessoas interessadas podem entrar em contato com a Câmara para conhecer o jogo e, na sequência, passarem pela capacitação. “O Legislativo não é algo distante das pessoas. É formado pelas pessoas que representam a população e defendem os interesses do cidadão castrense”, observa.

“Como vereador e professor, acredito que esse seja o melhor modo de se atingir o aluno”, diz o vereador Maurício Kusdra. Segundo ele, o aluno não se concentra tanto apenas numa exposição, numa leitura. “De modo lúdico, mas muito verdadeiro, correto, com muita informação, ele vai aprender e se interessar mais, vai perceber de fato que as eleições são um jogo. Não só um jogo de tabuleiro, mas um jogo do nosso dia a dia, e no qual precisamos estar envolvidos”, afirma.

‘Extensão para o futuro’

Para a acadêmica de Direito Larissa Santos Vloet, que faz estágio no Fórum Eleitoral de Castro, a capacitação trouxe uma proposta “excelente”, uma vez que, segundo ela, o Jogo da Eleição “estimula, de forma divertida, reflexões sobre as eleições”. “Ensina brincando e desperta no aluno a importância de analisar as atitudes dos políticos, as questões de ética, e alerta o jovem sobre o poder e o verdadeiro valor do voto”, afirma. “Vejo como uma forma de estimular e cativar futuros eleitores, que aprenderão e levarão para a vida lições de direito e cidadania. Projetos como este são uma extensão para futuro”, conclui.

“Foi uma tarde bastante produtiva, que cumpriu o objetivo: capacitar os servidores e os professores para também aplicarem o Jogo da Eleição”, avalia o advogado Luiz Gustavo de Andrade. “Os alunos, brincando, entenderam o que é certo e o que é errado. Depois que se envolveram nos temas, entenderam muito bem a fala de quais são os dados de corrupção no Brasil e alguns problemas que o nosso processo eleitoral tem. Então, o intuito do jogo foi atingido, que é despertar no aluno um interesse pelo processo político”, complementa.

Crise ética

Para a advogada Mariana Pedroso, assessora de Contratos e Processo Legislativo da Câmara de Castro, a capacitação “é um reflexo do que buscamos nesta gestão do Legislativo”. “O munícipe precisa sentir que esta Casa de Leis é dele. O cidadão castrense deve se sentir acolhido na Câmara; mais do que isso, participar das nossas atividades. É por isso que nós, da equipe diretiva, promovemos essa capacitação, pois o Jogo da Eleição visa conscientizar os jovens a respeito da importância de um processo eleitoral ético”, observa.

Segundo Mariana, o combate à corrupção na administração pública se inicia no período eleitoral, “e a educação para a mudança se inicia com o jovem eleitor”. “Infelizmente, o Brasil vive em meio a uma crise ética em que a corrupção é sistêmica e vista com normalidade. E ações como esta são capazes de mudar realidades. Ainda que o movimento comece pequeno, em apenas um município, temos convicção de que a semente plantada na cabeça dos jovens castrenses pode mudar a realidade em que vivemos”, completa.

Para Mariana, o evento foi “muito proveitoso, tanto para os servidores, como para os munícipes que participaram”. “Tivemos a participação de vereadores, presidente de associação de moradores, professores, jovens estudantes e representantes da Justiça Eleitoral. Este foi apenas o início de um projeto que só tem a acrescentar para o nosso município, por ser uma iniciativa de conscientização totalmente apartidária e sem viés político. Trata-se de um projeto bastante democrático e enriquecedor”, destaca.

Para Daniel Moraes Pedroso, analista de Recursos Humanos da Câmara, a primeira parte da tarde de capacitação foi importante porque esclareceu muitas dúvidas sobre o processo eleitoral deste ano. “Quanto ao jogo, também foi bastante interessante, com os alunos participando. Eu joguei e concluí que o jogo passa uma boa ideia de como é o processo eleitoral”, conta.

Justiça social

Para o professor de História Claudio Dias, do Colégio Professora Joana Torres Pereira e que acompanhou alguns alunos que participaram do Jogo da Eleição, a iniciativa da proposta é “interessante, válida e legitima”. “Porém, eu não acho que seja uma panaceia, que vai resolver tudo. Tem outras coisas que o jogo não contempla, embora não seja esse o objetivo desse jogo”, afirma. “Eu conversava com os advogados e eles me contaram que têm outros materiais que também são importantes. Eu acho importante, por exemplo, falar sobre justiça social, e, aí, você vai estar falando sobre o modo de produção capitalista. O que eu quero dizer é o seguinte: não ter corrupção no País não implica em justiça social. E jogos  também poderiam auxiliar nesse sentido, e eles [Instituto Mais Cidadania] têm esses jogos”, pondera.

“Achei muito interessante a proposta, bem legal, bem divertida. Foi uma forma diferente de nos passar os temas da política”, disse a estudante Thais Vaz, de 17 anos, que cursa o terceiro ano do Ensino Médio no Colégio Professora Joana Torres Pereira. “Geralmente, a gente não se importa muito, mas, com esse jogo, aprendi muito”, completa.

Isaías da Silva do Prado, 16, que também cursa o terceiro ano no mesmo colégio, igualmente achou o jogo “muito interessante”. “É uma proposta muito boa para os jovens que não estão muito interessados em política. Eu não tenho muito conhecimento sobre isso, mas, com esse jogo, aprendi um pouco”, afirma. “Na verdade, a gente não percebe o quanto é roubado, e mesmo aqueles que roubam podem estar no poder. E nós votamos pra eles, mesmo sem saber que estão roubando. E isso não muda porque eles já roubaram anteriormente”, observa.

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Câmara de Castro é a primeira do Paraná a receber o ‘Jogo da Eleição’

A Câmara Municipal de Castro é a primeira do Paraná a receber o Jogo da Eleição. E o município, o primeiro do Interior do estado a promover a capacitação para o jogo. “Sinto-me muito realizada pelo fato de a nossa Câmara ser a primeira do Paraná a promover o Jogo da Eleição. Somos pioneiros. Para nós, é uma responsabilidade enorme, porque precisa dar certo. E, dando certo, esse projeto vai abrir para outras câmaras do estado”, afirma a vereadora Fátima Castro. “É algo inovador, e a Câmara de Castro sai na frente. Gradativamente, eu acredito que chegaremos a uma sociedade melhor, um maior zelo pela coisa pública. Porque os espaços públicos, o dinheiro público, são de todos os cidadãos, e todos precisamos cuidar. Há pessoas que dizem que não querem se envolver em política, mas a política permeia o nosso dia a dia. Precisamos mudar essa mentalidade”, avalia.

“Acho que essa capacitação foi uma inovação do nosso município, da nossa Câmara. Poucas cidades fazem isso e estamos um passo além de outros municípios com esse projeto inovador”, avalia o vereador Maurício Kusdra. “É um orgulho para Castro estarmos pensando não politicamente, eleitoralmente, mas com consciência cidadã”, conclui.

Convites e parceria

“No interior do Paraná, a primeira atividade grande com potencial para atingir a cidade inteira foi aqui em Castro. E foi a primeira Câmara, também, o que só engrandece o nosso trabalho”, corrobora o advogado Roosevelt Arraes. “Tem outras cinco ou seis cidades que estão aplicando o jogo, mas de maneira bem embrionária. São cidades pequenas, nas quais o juiz eleitoral fez a solicitação ao TRE. Aí o Tribunal, com quem temos parceria, encaminhou os jogos, e nós fizemos o treinamento virtual, não presencial, como fizemos aqui em Castro”, afirma.

De acordo com o advogado Luiz Gustavo Andrade, o Instituto Mais Cidadania tem convites de Rotary Clubs de Morretes, Dionísio Cerqueira (SC) e São Luís (MA). Em Curitiba, os convênios são com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE/PR), Ministério Público (MP/PR), Tribunal de Justiça (TJ/PR), Centro Universitário Curitiba (Unicuritiba) e Rotary Club. “E estamos em conversações com a OAB para levarmos o Jogo da Eleição para o Interior’, afirma.

Além disso, o Instituto Mais Cidadania firmou parceria com uma instituição do Pará para aplicar o Jogo da Eleição. “Eles vieram até nós, em Curitiba, levaram o material, fizeram o treinamento e começaram a aplicar o jogo lá, mas ainda estão fazendo uma atividade pequena”, explica Roosevelt. A atividade “forte”, segundo ele, ainda é no Paraná, em Curitiba, mais precisamente na Escola do TRE, onde o jogo foi aplicado para mais de quatro mil estudantes.

“Tem outra atividade do Instituto, que é a formação institucional nas escolas onde levamos noções de Direito Constitucional e também aplicamos o jogo. Nessa atividade, atingimos mais oito mil estudantes. Então, até agora, nós já atingimos perto de 12 mil estudantes somente em Curitiba e municípios da região metropolitana. Só que como a justiça eleitoral está em ano de eleição, os servidores não têm tanto tempo para exercer essa atividade. Uma atividade mais organizada, que envolve mais servidores, que vai envolver mais escolas e vai testar pra valer, que consegue produzir um impacto mais efetivo, é agora, aqui na câmara.

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Jogo surgiu da necessidade de atingir adolescentes com temas eleitorais

O advogado Roosevelt Arraes, do Instituto Mais Cidadania, é um dos idealizadores do Jogo da Eleição. Ele conta que a ideia de criá-lo começou da necessidade de se atingir jovens e adolescentes com temas eleitorais. “Em 2013, eu tinha grupos de pesquisa de iniciação científica na faculdade onde leciono, a Unicuritiba [Centro Universitário Curitiba], e estava preocupado em levar material dessa pesquisa a mais pessoas. Produzíamos muito material acadêmico, mas o que nos deixava angustiados era que, às vezes, nem os nossos próprios colegas viam o que produzíamos. Ou seja, o impacto acadêmico do que produzíamos era muito baixo”, relata.

Roosevelt e seus colegas começaram, então, a analisar projetos sociais que já existiam em outras faculdades, entidades do Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Percebemos que, na maioria das vezes, esses grupos levavam palestras, com juízes, promotores, advogados, atividades que produziam resultado e eram interessantes, mas que não atingiam os jovens”, conta.

A principal dificuldade apontada por Roosevelt, nesse processo, era a “competição” com as redes sociais e outras ferramentas, “enfim, com outras prioridades dos jovens”. “Percebíamos que havia gente altamente qualificada que ia até as escolas, mas que não recebia a devida atenção”, lembra.

“Aí, pensamos no jogo. Eu e mais um grupo de alunos e professores começamos a desenvolver a ideia a partir de outro jogo e decidimos, então, criar o ‘Jogo da Eleição’. Por acaso, fomos ao TRE [em Curitiba] mostrar outro jogo, mas o pessoal sugeriu fazermos algo voltado para as eleições e para os adolescentes, para quem vai votar a primeira vez”, relata Roosevelt. A fase da criação do primeiro protótipo demorou perto de oito meses. “Durante mais ou menos um ano, fizemos os testes e chegamos a essa versão final, que ficou pronta no começo de 2019”, conta.

Segundo Roosevelt, o Jogo da Eleição tem um objetivo institucional. “Toda instituição que se preze tem que manter a neutralidade ideológica e partidária e propor os valores republicanos. Defender uma eleição ética, a mais igualitária e a mais justa possível, preocupada com o esclarecimento do eleitor. Nós primamos por isso: produzir um jogo quer traga esse caráter institucional da atividade eleitoral”, explica.

Prêmios

O Jogo da Eleição já foi aplicado para mais de 12 mil jovens em Curitiba e cidades vizinhas e recebeu dois prêmios: o Sesi ODS, voltado às práticas alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), e o Sinape/PR, também ligado aos ODSs. O Prêmio Sesi ODS busca reconhecer os melhores projetos de indústrias, empresas, do poder público, de organizações da sociedade civil e de instituições de ensino voltados à promoção do desenvolvimento social, ambiental, econômico e institucional, que contribuam para o alcance das metas previstas na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável no Brasil, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) que propõe 17 objetivos globais visando ao desenvolvimento sustentável. O Prêmio Sinepe-PR de Práticas Inovadoras em Educação, promovido pelo Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe/PR), foi recebido em 9 de novembro de 2018.